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segunda-feira, 7 de julho de 2014

Sobre o amor e a ortografia

Eu sempre prezei por pontos, vírgulas, travessões. Todas essas regras de português. Todas essas regras. Saber escrever, pra mim, era requisito básico para a conquista, para o amor. Aí um dia percorri meus olhos naquela confusão de letras que era você. Naquela confusão que era você. Naquela confusão. Em você.

Pra que te interpretasse, era preciso que eu organizasse a sua escrita. Colocasse cada ponto, cada vírgula no seu lugar. Acho que as suas mensagens são uma tradução do que é você: está tudo ali, mas de certa forma meio atrapalhado, meio bagunçado. Como compreender?

Ainda mais eu, que tenho a mania de colocar cada coisa em seu lugar – não só ortográfico. Ao mesmo tempo, também tenho de lidar com a bagunça da minha própria linguagem.
Acho que invejo a sua forma tão mais simples de escrever suas histórias. Afinal, é preciso mesmo tantas normas? Digo, é claro que a forma tem o seu valor. Quem ler essas palavras, tal qual as coloco aqui, talvez se impressione pelo meu domínio do português. E eu me impressionei com a sua "escrita pura".


Em termos de literatura é até poético – ao menos da forma como vejo. Mas acontece que a semântica ajuda a construir as relações fora das folhas de papel. O ponto e a vírgula, quando separados, são bem simples - e nem é tão difícil assim aprender a usá-los. Assim como um parágrafo novo. Assim como as reticências.

sábado, 28 de junho de 2014

Corpos aquecidos



Hoje o amanhecer foi frio. Meu corpo foi meu termômetro. Em dias assim, uma parte específica do meu braço - entre o cotovelo e o ombro - é sentida de outra forma. É como se um pedaço de mim se mostrasse desprotegido; eu posso experimentar essa sensação ou então me agasalhar. Quem dera fosse assim simples lidar com outras fragilidades que se colocam à mostra, nossas e dos outros.

Um prenúncio do frio já se apresentava ontem. Nas duas vezes que saí de casa, usava menos roupa do que deveria. Para espantar o frio, ainda que momentaneamente, troquei o café pelo chocolate quente. O café desperta o corpo. O chocolate quente aquece, aquieta.

No Brasil, de três em três meses começa uma nova estação. Tudo muda e a gente se adapta às novas condições, assim como a vida. O calendário traz pra perto, quando menos se espera, o que estava distante. A proximidade implica em compartilhar. E não há nada que nos faça sentir mais vivos que isso, o compartilhar.

Enquanto o verão praticamente nos obriga à uma vida social, cheia de alegria e diversão, o inverno parece nos colocar mais em contato com nós mesmos. É como se a estação vestisse nossos corpos, mas desnudasse a alma. E para isso é preciso um certo recolhimento. Alguns mais, outros menos.

No inverno há pés que procuram por outros debaixo das cobertas, o parceiro que espera com uma sopa quentinha, as taças de vinho que deixam o armário. Há fricção de nossas próprias mãos. Há fricção entre diferentes corpos.


E aí eu lembro da minha cabeça buscando seu pescoço, de minhas mãos enlaçando e percorrendo seu corpo e de nós dois se aquecendo, um dentro do outro. Só não mais que o coração. 

João, Ladrão

Foi notícia nos jornais: "Ladrão é preso após tentativa atrapalhada de roubar um carro". Pobre João. Se há uma palavra que o define é honestidade. Caminhava pelas ruas da cidade, quando um manobrista desceu de um carro e deixou o motor ligado com a chave na ignição. João teve a repentina ideia de entrar no veículo e sair em disparada. Dito e feito. Mas a poucos metros dali, bateu em um poste. Foi cercado pelos verdadeiros donos do carro, funcionários do estacionamento e curiosos. Acionaram a polícia. João não tinha nenhuma justificativa para a infração. Trabalha muito, ganha pouco, deve aqui e ali mas nada desesperador para um homem acostumado com a pobreza, como ele. Simplesmente fez. Foi preso. Mas, pra ele, pior é ser chamado de ladrão. Não que estejam errados. Mas também não estão certos. Pobre João, Ladrão.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Ser e estar

Eu vou atender a sua ligação e aceitar o convite que você não me fará.  Espere por mim. Em no máximo uma hora eu bato à sua porta. Neste instante você está preparando o omelete que fará para nós dois - aquele que sua avó chamava de fritada. Enquanto isso eu caminho até o supermercado mais próximo e compro um champagne não tão barato. Quando eu te entregar a garrafa, sua cara será de estranheza, beirando a reprovação. Sua boca dirá que não combina, a menos que estivéssemos em Paris. "Não estamos?!" Daremos risadas, sentados no carpete da sua sala de estar. Estaremos. Sala de ser. Seremos. Não importa o quê. 

terça-feira, 19 de junho de 2012

O caos da caso

Fosse o caso
Não estaria um caos
Mas quis o acaso
Que a casa caísse
E não por acaso
Casou o destino
Que encerrado
O caso fosse

quarta-feira, 14 de março de 2012

Confesso, nunca fui a Paris

Confesso: nunca fui a Paris. Não sei como são as águas do Rio Sena, apenas sorrio quando me falam das obras que guarda o Museu do Louvre, e não tenho registro fotográfico de mim no gramado da Torre Eiffel. Mais que o luxo da alta moda ou o requinte do champagne francês, interesso-me pelas produções cinematográficas, desde o menos popular La Tête en Frich até o grande clichê Le fabuleux destin d'Amélie Poulain. Todos vistos pela tela de cinema, é claro. À Paris, ou qualquer outra cidade francesa, nunca fui.

Não ter ido a Paris é um agravante. Primeiro porque estou mais perto da casa dos 20 que dos 30 anos de idade. E os jovens, bem, os jovens hoje precisam ir até Paris, Londres ou até mesmo Nova York para mostrar aonde querem chegar – mesmo que na maioria das vezes seja mais perto do que se pensa. A outra razão é que sou jornalista. Ou seja: podemos até ganhar um salário que implique no parcelamento da passagem e hospedagem, mas é obrigação saber falar sobre as viagens que se fez; se a Paris, melhor ainda. E o último detalhe, que faz toda a diferença: sou gay. E nós, gays, somos sinônimos de bem-viver. Quer mais bem-viver que Paris?


As filhas de um casal de amigos, ambas por volta de seus seis, sete anos de idade, já foram a Paris. A maioria dos meus contatos nas redes sociais, vide seus álbuns, também. Mas eu, veja só. Nunca. Nunca fui a Paris.

- De onde viemos? Para onde vamos?


Não me amole com estas questões. O que importa mesmo é ter ou não ido a Paris. Eu nunca fui. E sendo assim, minhas impressões de nada valem. Se só estive aqui, nunca acolá, como afirmar, convicto, se prefiro branco ou preto, o calor ou o frio? Só saberia tivesse ido a Paris. Sim, tivesse ido não estaria agora com a bunda sentada na cadeira, escrevendo sobre uma cidade onde nunca estive.

Ah, tivesse eu ido a Paris tudo seria diferente. Saberia a cor das águas do Sena; contaria aos desavidos, como eu, os detalhes das obras do Louvre; e reclamaria ao garçom o sabor do café.

- Nem de longe lembra os de Paris!

Teria sentado a bunda não nesta cadeira, mas em um banco parisiense. De preferência sentindo o gosto do champagne e contemplando a moda francesa. Honraria os jovens, os jornalistas, os gays. Mas confesso: nunca fui a Paris.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Escute o silêncio, Teresa

Não recordo a última vez que elogiei Teresa. Sei que esta manhã, quando ela pegou a bicicleta que estava atirada em um canto da lavanderia e foi pedalar, fiquei na vontade. Não usava nada que realçasse suas formas. Pelo contrário. Vestia qualquer coisa velha e comportada. Mas tinha os habituais olhos marotos e aquele sorriso de uma só linha, que não deixa mostrar os dentes. Estava linda. E indubitavelmente sexy.

Quando fomos apresentadas, disse a ela que era a mulher mais bonita que eu já conhecera. Ela respondeu que aquilo não era novidade para seus ouvidos. Viesse da boca de outra pessoa isso soaria prepotência. Talvez até tenha um pouco disto. Mas Teresa apenas me alertava que eu teria de ser mais original em minha conquista. Sabia desde o início que não era verdade absoluta o que eu dizia. Que há muitas outras mulheres mais belas que ela. Mas tinha, e ainda tem, plena noção dos desejos que desperta. O caso é que, com verdades ou mentiras, conquistei-a.

Aquela mulher hoje é minha. Eu, de início, quis mostrar isso ao mundo. Saía por aí de mãos dadas com ela. Orgulhosa. Quando alguém elogiava sua beleza, eu me fazia de rogada, e como fosse a coisa mais natural do mundo, apenas sorria e balançava a cabeça. Sem alardes. Teresa, danada, percebia meu jogo e participava. Toda vez que íamos a um evento com a presença de conhecidos meus, aprumava-se na medida exata de causar boa impressão, sem exageros.

Teresa tem um quê de narcisista. Porém, não a ponto de afogar-se em suas próprias águas. Às vezes ela tira minha roupa, me põe em frente ao espelho, e alisa meu corpo, sussurrando em meus ouvidos ora safadezas, ora delicadezas.

- Percebe, Lúcia, quão bonita és?

Com o seu corpo colado ao meu, Teresa, percebo. Nada digo. Mas penso que tu ainda és aquela mulher bonita e sexy que um dia caiu no meu papo furado. É que ouvi de tua própria boca que tantos outros já falaram – e de certo continuam a falar, mesmo que tu não me contes –, que prefiro ser tua eterna admiradora. Como nesta manhã, quando foste pedalar por aí. Escute meu silêncio, Teresa. É o que de mais verdadeiro te digo.